Preço Justo | Ação solidária vende botijão de gás a R$ 60 em cinco cidades do país

Nesta quinta-feira (02/09), o Observatório Social da Petrobrás (OSP) e a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) vão vender botijão de gás de cozinha a R$ 60. A ação solidária “Dia Nacional do Gás a Preço Justo” será realizada em bairros periféricos das cidades paulistas de São José dos Campos, Santos e São Sebastião e das capitais de Belém (PA) e do Rio de Janeiro (RJ). Postos de cadastramento foram montados nessas regiões para a retirada do voucher, que dá direito ao botijão de gás com preço justo.
A iniciativa faz parte da campanha “Petrobrás para os brasileiros” e quer mostrar à população que sem o PPI (Preço de Paridade de Importação), a política de preços adotada pela gestão da estatal que é a grande responsável pela alta dos combustíveis, o gás de cozinha poderia custar mais barato, o equivalente à metade do valor praticado hoje em várias regiões do país. Em alguns municípios do Mato Grosso, segundo levantamento da ANP (Agência Nacional do Petróleo), o botijão já é vendido a R$ 130.
O custo de R$ 60 é considerado um preço justo ao consumidor final, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) produzida para o OSP. Esse número é fruto da análise da estrutura de custos da Petrobrás, eliminando o PPI, modelo que as gestões da estatal utilizam desde 2016 para definir os valores dos combustíveis em suas refinarias. Apesar de cerca de 80% dos derivados do petróleo serem produzidos no Brasil, o PPI segue o mercado internacional e se baseia, principalmente, nas variações do dólar e do barril do petróleo como principais referências para o cálculo dos combustíveis. Com isso, o consumidor brasileiro paga valor de importação em um produto nacional.
“Com a ação do preço justo do gás queremos ajudar famílias necessitadas e dialogar com a população sobre o PPI. Ao contrário do discurso presidencial, não são os impostos estaduais os principais responsáveis pelos preços abusivos cobrados hoje no Brasil. O grande vilão dos preços altos dos combustíveis é o PPI e, se o governo quiser, ele pode baratear o custo de vida da população. É só mudar a política de preços da Petrobrás”, afirma o secretário geral da FNP, Adaedson Costa.
Durante a ação solidária serão realizados bate-papo com os moradores de comunidades carentes e distribuídos materiais impressos com explicações sobre o preço justo do gás de cozinha, que já aumentou 38% só neste ano. “Também queremos, com essa atividade, formar comitês populares em defesa de uma Petrobrás 100% estatal, a serviço do povo brasileiro”, destaca o dirigente.

A importância da Petrobras para o estado de Alagoas

Por Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (IBEPS) para o Observatório Social da Petrobrás

Em teaser publicado em junho de 2020, a Petrobras anunciou a “Oportunidade de investimento em campos terrestres e de águas rasas no Brasil” para seus campos em Alagoas. Isto faz parte da política da Petrobras de privatização e saída de várias regiões do país e de outros setores que não Exploração e Produção no Pré-sal.

A Petrobras é há décadas a maior empresa do país. Seus investimentos, sua geração de empregos e inovações tecnológicas geram externalidade positivas para aqueles que vivem onde a empresa atua, e por isto é importante sua estadia em regiões que não Rio-São Paulo.

Neste texto, iremos expor alguns dados sobre a importância que a estatal tem para o estado de Alagoas, onde sua principal atividade é a de extração de petróleo e gás natural.

A Petrobras e Alagoas

No estado de Alagoas, hoje, há 15 campos de petróleo e gás em terra e 1 em mar – sendo 7 destes campos pertencentes à Petrobras. Nestes 16 campos, em 2020 foram produzidos 909.733 barris de petróleo[2] (óleo + condensado) e 1.690 Mm³[3] de gás natural (associado + não-associado) em terra e 20.186 barris de petróleo e 40.886 Mm³ de gás natural em mar. Deste total, a Petrobras foi responsável em 2020 pela produção de 88,7% de óleo e 98,6% de gás natural. A nível de toda a Petrobras, em 2020 Alagoas foi responsável por produzir 0,1% do óleo e 0,14% do gás natural da estatal.

Tabela 1 – Produção de petróleo (óleo + condensado) e gás natural (associado e não-associado) no estado de Alagoas no ano de 2020 (em m³ para o petróleo e Mm³ para gás natural)

óleogás
Total Petrobras127.852117.334
Total Terra140.96578.077
Total Mar3.20940.886
Total Alagoas144.174118.963
%Petrobras88,68%98,63%

Fonte: ANP [Elaboração própria]

Hoje, temos um volume total de reservas no estado de Alagoas de 433,4 milhões de barris de petróleo e de 54,7 milhões de m³ de gás natural. Sendo que destas, 88% das reservas de óleo e 98% de gás natural são da Petrobras. A nível nacional, Alagoas representa 0,21% das reservais totais de óleo e 1,1% das reservas totais de gás natural.

Tabela 2 – Reservas de petróleo e gás natural em Alagoas

 VOIP[4] (bbl)VGIP[5] (m³)
Reservas Petrobras379.528.44953.494.783.570
Reservas não-petrobras53.842.9731.228.353.510
Reservas totais433.371.42254.723.137.080
%Petrobras88%98%

Fonte: ANP [Elaboração própria]

Apesar de uma participação pequena na produção nacional, a Petrobras tem uma grande relevância para Alagoas. Em 2020, os municípios alagoanos receberam R$ 130,663 milhões em royalties, quase todos deles vindos da Petrobras[6]. Já o estado de Alagoas recebeu R$ 19,52 milhões naquele mesmo ano. Como as atividades de produção de petróleo e gás se concentram na região leste do estado, o pagamento de royalties também é feito principalmente para aquelas cidades – como pode ser visto no mapa gerado a partir dos dados da ANP. No Mapa 1, os municípios com o azul mais escuro foram aqueles que receberam mais pagamentos de royalties em números absolutos, sendo o maior deles a cidade de Pilar. A variação dos municípios com alguma coloração vai de R$ 1.877,00 a R$ 26,3 milhões em royalties.

Mapa 1 – Pagamento de royalties de petróleo para municípios de Alagoas (em R$)

Fonte: ANP [Elaboração própria]

Entre os dez maiores recebedores de royalties de Alagoas em 2020, podemos ver que, à exceção de Maceió, todos têm esta fonte de receitas como relevante, variando entre 2% e 19% das receitas totais do município.

Tabela 3 – Peso dos royalties nas receitas totais dos 10 municípios que mais receberam royalties em 2020[7]

MunicípioRoyaltiesReceita total%royalties
Santa Luzia do NorteR$ 6.872.309R$ 36.982.742,1419%
Coqueiro SecoR$ 6.863.266R$ 38.092.617,4318%
ParipueiraR$ 6.918.705R$ 49.001.009,5914%
PilarR$ 26.314.543R$ 203.704.090,4513%
AtalaiaR$ 7.299.470R$ 151.614.158,895%
São Miguel dos CamposR$ 7.545.313R$ 233.297.045,643%
Marechal DeodoroR$ 6.731.461R$ 279.031.523,552%
Rio LargoR$ 6.791.814R$ 291.117.143,062%
MaceióR$ 7.247.627R$ 3.194.363.444,440,2%

Fonte: ANP; Siconfi-Tesouro [Elaboração própria]

Além disto, a Petrobras também gera empregos no estado. A estimativa, a partir dos dados disponibilizados pelo Sindipetro-AL/SE, nos mostra que há cerca de 900 empregados diretos e terceirizados que trabalham para a Petrobras em Alagoas. Com uma média salarial de R$ 11 mil para diretos e de R$ 2 mil para terceirizados, temos uma massa salarial anual de R$ 40,95 milhões. Isto sem considerar outros benefícios, como a PLR, vale refeição, plano de saúde, etc.

Tabela 4 – Estimativa do número e da massa salarial dos empregados da Petrobras no estado de Alagoas

VínculoEmpregadosSalário MédioMassa salarial anual
Petrobras100R$ 11.000,00R$ 14.300.000,00
Transpetro50R$ 11.000,00R$ 7.150.000,00
Terceirizados750R$ 2.000,00R$ 19.500.000,00
Total900R$ 40.950.000,00

Fonte: Sindipetro-AL/SE

O setor de petróleo e gás gera empregos com melhor remuneração do que a média da economia. Podemos ver o reflexo dos dados da Tabela 4 nos Gráficos 1 e 2. No Gráfico 1, utilizando a classificação de subclasse da CNAE do IBGE, temos uma categoria mais vinculada aos empregos diretos do setor, Petrobras e não-Petrobras. Como podemos ver, quase todo este grupo recebe acima de 7 salários mínimos.

Gráfico 1 – Remuneração por classe dos trabalhadores registrados no setor de Extração de petróleo e gás natural no estado de Alagoas para o ano de 2019 (Em quantidade de salários mínimos)

Fonte: RAIS

Já na segunda classificação utilizada aqui, a do setor de Atividades de apoio à extração de petróleo e gás natural, temos uma remuneração um pouco mais baixa, concentrada principalmente entre 1,5 salário mínimo a 7 salários mínimos.

Gráfico 2 – Remuneração por classe dos trabalhadores registrados no setor de Atividades de apoio à extração de petróleo e gás natural no estado de Alagoas para o ano de 2019 (Em quantidade de salários mínimos)

Fonte: RAIS

Isto não ocorre porque a Petrobras é estatal (vide o grupo de trabalhadores de ambos os subsetores expostos aqui, compostos também por outras empresas), e sim porque é um setor com alta lucratividade e demanda trabalhadores com grande especialização. Comparando com outras petrolíferas estrangeiras, a Petrobras tem uma remuneração aos seus empregados menor, intensificada nos últimos anos pela desvalorização do Real diante do Dólar[8].


[1] Este é um texto produzido pelo Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) a pedido do Observatório Social da Petrobrás. Redigido por Eric Gil Dantas.

[2] O dado original é publicado em m³. No caso de petróleo, podemos converter para barris (bll) multiplicando por 6,29, isto é: 1m³ ≈ 6,29 bbl.

[3] Milhares de metros cúbicos.

[4] Volume de óleo in place.

[5] Volume de gás in place.

[6] Considerando, como vimos na Tabela 2, que a Petrobras produz 88% de todo o óleo e 98% de todo o gás do estado. Os dados disponibilizados pela ANP sobre royalties não discriminam o pagamento do montante por empresa.

[7] Aqui não entrou o município de Teotônio Vilela por estar sem os dados no Siconfi-Tesouro Nacional.

[8] http://www.sindipetrolp.org.br/imprensa/artigos/82/quem-sao-os-verdadeiros-privilegiados

Polo de Alagoas | Ibeps prevê redução de até 75% dos empregos, com venda dos campos da Petrobrás

A venda dos sete campos de petróleo da Petrobrás em Alagoas, já anunciada pela gestão da estatal, deverá provocar uma queda acentuada no número de postos de trabalho e o rebaixamento de salários, aprofundando ainda mais a crise econômica no estado. A conclusão é do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), que analisou o desempenho de três petrolíferas nacionais privadas, com o mesmo perfil da Petromais, compradora do Polo de Alagoas, e verificou uma diminuição média de 75% na contratação de empregados próprios e terceirizados em relação ao efetivo da Petrobrás no estado alagoano.
No levantamento, foram avaliados os relatórios de referência, que são encaminhados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), das empresas PetroRio, 3R Petroleum e PetroRecôncavo, que operam campos maduros, comprados da Petrobrás. “Baseamos nossa pesquisa na quantidade de empregos diretos e terceirizados relativamente à produção de óleo e gás de cada uma dessas empresas, que são do mesmo porte e de capital aberto”, afirma Eric Gil Dantas, economista do Ibeps. A intenção do pesquisador era incluir no estudo a PetroMais, porém, a petrolífera é de capital fechado e não divulga seus números para o mercado.
“A Petromais, que adquiriu o Polo de Alagoas, é uma pequena empresa que também atua na extração de petróleo e gás. Alguns desses empreendimentos vêm surgindo com o espólio da Petrobrás. A 3R Petroleum, a principal delas, mostra a estrutura dominante nesse setor. Ela também vira um caso exemplar por ter disponibilidade de dados através de seus relatórios”, destaca o economista.
A 3R já atua nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte e, em breve, inicia operação em campos de petróleo no Ceará, Espírito Santo e na Bahia. Em dezembro de 2020, a empresa empregava 206 trabalhadores, sendo 70 diretos e 136 terceirizados, produzindo 4,9 mil barris de óleo equivalente (boe), de acordo com levantamento do Ibeps. No mesmo período, a Petrobrás de Alagoas produzia um volume 14% menor, com um quadro de 900 funcionários, entre 150 próprios e 750 terceirizados.
“Neste caso, o que pode parecer maior produtividade, na verdade, é menos salários para gerar mais lucros, principalmente em um setor como o de petróleo e gás onde o menor custo não é repassado ao consumidor, em função do preço internacional do barril e da política de preços da Petrobrás, o PPI (Preço de Paridade de Importação)”, esclarece Dantas.
A redução drástica no número de trabalhadores e a baixa salarial são fortes características dessas empresas menores e sinalizam os impactos que devem atingir Alagoas. Só no primeiro trimestre deste ano, o estado já contabilizava 254 mil desempregados, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Comparado com o mesmo trimestre de 2020, houve um aumento de 27,9% no número de desempregados e queda de 4,3% na massa de rendimento dos alagoanos.

Royalties
Existem hoje, em Alagoas, 15 campos de petróleo e gás em terra e um em mar, sendo que sete deles pertencem à Petrobras. Em 2020, a estatal foi responsável pela produção estadual de 88,7% de óleo e 98,6% de gás natural. Um estudo realizado pelo Ibeps sobre “A importância da Petrobrás para o estado de Alagoas” aponta que a companhia tem participação relevante na receita de várias cidades alagoanas, com o pagamento milionário de royalties.
No ano passado, os municípios alagoanos receberam R$ 130,6 milhões em royalties e o estado de Alagoas, R$ 19,52 milhões, quase toda receita foi gerada pela Petrobrás. “Entre os dez maiores contemplados, a exceção de Maceió, todos têm essa fonte de receitas como relevante, variando entre 2% e 19% das receitas totais do município”, ressalta Eric. A cidade de Santa Luzia do Norte, por exemplo, tem uma receita de R$ 36,9 milhões, sendo que quase R$ 7 milhões são provenientes de royalties.

Outdoors em cinco cidades paulistas denunciam política de preços dos combustíveis

Outdoors em ruas e avenidas das cidades de São José dos Campos, Jacareí, Caçapava, Guaratinguetá e Lorena, no interior de São Paulo, denunciam a política de preços da Petrobrás, responsável pela disparada no valor dos combustíveis. Só neste ano, a direção da estatal já anunciou seis sucessivos reajustes nos preços da gasolina e do gás de cozinha e cinco altas do diesel. A campanha “Preço Justo, Já!” é promovida pelo Sindicato dos Petroleiros de São José dos Campos (Sindipetro-SJC), em parceria com o Observatório Social da Petrobrás (OSP).
São sete outdoors, que foram instalados em locais estratégicos nos cinco municípios, onde há alta circulação principalmente de veículos. Foram confeccionados dois modelos de painéis. Um deles estampa a foto de Bolsonaro e compara a contradição das suas declarações sobre a política de preços da Petrobrás em dois momentos: primeiro em 2018, durante a campanha eleitoral, e agora, no poder. O segundo modelo, sem foto, imita um cartaz de promoção e também faz crítica à política de precificação dos combustíveis.
Desde o início do governo Bolsonaro, o gás de cozinha vendido pela Petrobrás acumula alta de 66%; a gasolina, 46%; e o diesel, 48%, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis).
“Essa campanha tem o objetivo de sensibilizar a população para o problema, já que os aumentos constantes no preço dos combustíveis vêm penalizando muito a população, sobretudo os mais pobres”, afirma o presidente do Sindipetro-SJC, Rafael Prado.
Estudo realizado em abril pelo Observatório Social da Petrobrás mostra que é possível vender a gasolina a R$ 3,60, o diesel a R$ 2,90 e o botijão de gás a R$ 60. Para isso, basta acabar com o PPI (Preço de Paridade de Importação), política adotada desde 2016 pela gestão da Petrobrás, que precifica os combustíveis de acordo com as variações do dólar e do petróleo internacional. “Ao contrário do que o governo diz, é possível sim baixar o valor dos combustíveis e praticar um preço justo. Mas para isso é importante que a população se sensibilize e também entre na luta, junto com a categoria petroleira, contra a política de preços dos combustíveis e em defesa de uma Petrobrás para os brasileiros”, afirma o petroleiro.

Para mais notícias e informações, acesse o site do Observatório Social da Petrobrás: http://www.observatoriopetrobras.com

*com informações do Sindipetro-SJC

Privatômetro | Direção da Petrobrás já privatizou R$ 198 bilhões nos últimos seis anos

O Observatório Social da Petrobrás (OSP) lança nesta quarta-feira, 16 de junho, o Privatômetro, um instrumento que funcionará como uma espécie de raio-x das privatizações da Petrobrás. Uma das informações de destaque da página, instalada no site do Observatório, que também será inaugurado nesta quarta-feira, é a soma bilionária que as últimas gestões da companhia arrecadaram com a venda de ativos.
Segundo o Privatômetro, de 2015 até março deste ano, o plano de desinvestimentos abocanhou mais de R$ 198 bilhões – em valores atualizados pela inflação. O montante equivale ao dobro do lucro que os cinco maiores bancos do país tiveram em 2019.
O Privatômetro do OSP foi elaborado pelos economistas Eric Gil Dantas e Tiago da Silva Silveira, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps). O espaço foi criado para informar a população sobre os ativos da Petrobrás que estão sendo privatizados, os valores que essas transações envolvem e a consequências dessas negociações para o país.
A Petrobrás, segundo Dantas, vem enfrentando um forte processo de desmonte há pelo menos seis anos e suas gestões já se desfizeram de muitos ativos da estatal. “O Privatômetro vai permitir à população visualizar, de forma clara e objetiva, como está se dando esse processo de privatização e os impactos econômicos que gera ao povo brasileiro, além de quais ativos já foram vendidos, quando e por qual valor, sendo atualizado pela inflação e transformado de dólar em real”, afirma o pesquisador do Ibeps.
No seu lançamento, o Privatômetro trará uma sistematização das vendas de ativos da Petrobrás de 2015 a março deste ano, no período que seria o início do plano de desinvestimento da estatal até os dias atuais. A página apresentará ainda gráficos com a distribuição percentual da venda de ativos por segmento e nacionalidade das empresas compradoras e uma planilha completa de desinvestimentos.
Dados do Privatômetro apontam que a concentração das empresas que compraram ativos da Petrobrás está na América do Norte e Europa e a maior parte das unidades privatizadas refere-se ao segmento de Exploração e Produção (E&P). “Mais de 41% das vendas foram de ativos da área de E&P, o que mostra grandes contradições no discurso da empresa de crescer como produtora de petróleo e gás, já que abre mão das suas próprias reservas”, argumenta o economista.
Os dados disponibilizados no Privatômetro serão atualizados trimestralmente, na sequência da publicação dos resultados da estatal. Também serão divulgadas, periodicamente, pesquisas relacionadas aos ativos que estão em processo de privatização.

Para saber mais sobre o Privatômetro, acesse: https://observatoriopetrobras.com/

Relatório sobre a Petrobras Biocombustível S.A. (PBIO)

Eric Gil Dantas, pelo Ibeps para o Observatório Social da Petrobrás

O Brasil é o segundo maior produtor de biocombustíveis no mundo, devido ao seu tamanho e sua produção agrícola, e é pioneiro na tecnologia tanto da produção de etanol[1] quanto de biodiesel.

Segundo dados da OCDE/FAO, o Brasil terá um crescimento de 20% na produção de biocombustíveis ao longo da década de 2020, o que o consolidará na 2ª posição e o fará aproximar-se da produção dos EUA – maior produtor do mundo. Segundo esta projeção o Brasil só crescerá menos do que a Indonésia (+32,2%), dentre os maiores produtores do mundo.

Gráfico 1 – Produção de biocombustíveis por país (valores em Petajoule = 1015 Joule)

Fonte: OCDE/FAO

A produção de biocombustíveis é dividida em dois tipos: etanol e biodiesel. Em termos de etanol, o Brasil é também o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas dos EUA. A diferença entre o etanol americano e o brasileiro é que enquanto lá produzem etanol basicamente advindo do milho, no Brasil a matéria-prima utilizada é majoritariamente advinda da cana-de-açúcar.

Gráfico 2 – Participação por país na produção mundial de etanol no ano de 2020

Fonte: Renewable Fuels Association

Já em relação ao biodiesel, o Brasil está atrás da União Europeia, EUA e Indonésia, em quarto lugar, para o ano de 2019. Como a OCDE/FAO não disponibilizou sua lista comparativa para 2020, ainda não temos o ranking deste ano, no entanto, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – com o aumento da produção deste último ano, que pode ser visto no Gráfico 4 – o Brasil teria se tornado “o segundo maior fabricante de biodiesel do mundo, atrás apenas dos EUA”[2].

Gráfico 3 – Participação por país na produção mundial de biodiesel no ano de 2019

Fonte: OCDE/FAO

O consumo de biodiesel no Brasil vem aumentando exponencialmente. De um consumo irrisório em 2005, passou para 62,8³ mil m³. Se considerarmos a década de 2010 (um período com um mercado já bem estabelecido), o crescimento foi de 157%. Como vimos pela estimativa da OCDE/FAO, esta oferta deverá continuar a subir consideravelmente.

Gráfico 4 – Consumo Final de Biodiesel no Brasil (em 1.000³ m³)

Fonte: EPE

O aumento da demanda e consequentemente da produção se dá principalmente pelos mandatos de biodiesel a ser misturado no diesel fóssil. Iniciado em janeiro de 2008, quando passou a ser obrigatório a adição de 2% de biodiesel no diesel fóssil, este percentual subiu diversas vezes, estando hoje no patamar de 12% (B12). O objetivo é que em março de 2023 chegue ao percentual de 15%, no entanto, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu a volta para o B10 no 79º Leilão de Biodiesel, devido aos altos preços das commodities (principalmente soja), o que seria adicionado ao já elevado preço do diesel. Ainda assim, os mandatos serão retomados provavelmente já no próximo leilão de biodiesel e isto irá garantir o aumento da demanda do produto no país.

Gráfico 5 – Mandatos de biodiesel a ser misturado no diesel fóssil (de B2 a B15)

Fonte: CNPE

A Petrobras Biocombustível é uma empresa, hoje, lucrativa. Apesar de no início a empresa ter apresentado prejuízos, desde 2017 tem lucros líquidos anuais positivos.

Gráfico 6 – Lucro (prejuízo) líquido da PBIO (em milhões de reais)

Fonte: PBIO

Após anos de grandes investimentos, a PBIO passa a ser lucrativa a partir de 2017, como vimos no gráfico anterior. De 2012 a 2016 (a empresa não disponibiliza os dados de investimentos anteriores a 2012), quando a PBIO dava prejuízo financeiro, houve um total de investimentos de R$ 1,4 bilhão. Quando a empresa passou para o azul, com o retorno destes investimentos, a direção da Petrobras deverá vende-la.

Gráfico 7 – Investimentos totais da PBIO por ano (em milhões de R$)

Fonte: PBIO

A PBIO é a sexta maior empresa – relativamente à capacidade instalada para produção de biodiesel (m³/dia) – no país. Até fevereiro deste ano, também detinha 50% na BSBIOS, terceira maior empresa do setor, mas vendeu sua participação para a RP Participações em Biocombustíveis S.A..

Gráfico 4 – Percentual do total da capacidade instalada do país para produção de biodiesel por empresa (2019)

Fonte: ANP

A PBIO, hoje, tem uma produção menor de biodiesel do que entre os anos de 2012 e 2016. Sendo que o ano de 2016 marca a desativação de sua usina em Quixadá (CE).

Gráfico 5 – Produção de biodiesel pela PBIO em milhares de m³/dia

Fonte: ANP

O Brasil utiliza majoritariamente a soja como matéria-prima para a produção do biodiesel. Em 2020, 71,21% de toda a produção de biodiesel veio da soja, seguido de outros materiais graxos[3] (11,5%), gordura bovina (8,9%), outras[4] (5,8%) e óleo de dendê (2,56%). A PBIO tem um papel muito importante na diversificação da produção de biodiesel no país, tanto em termos regionais quanto de matéria-prima utilizada. Com uma produção muito concentrada no Centro-sul, com o Centro-Oeste produzindo 41,4% do biodiesel nacional e o Sul 40,6% (ambos no ano de 2019), a PBIO teve uma grande importância na produção da região Nordeste. Depois de sua criação (em 2008), chegou a ter 87% de toda a produção de biodiesel na região, com uma queda de importância depois do fechamento da usina de Quixadá (CE).

Gráfico 6 – Participação da PBIO na produção de biodiesel no Nordeste

Fonte: ANP

Como mostramos, em termos de matéria-prima, o Brasil utiliza majoritariamente a soja para a produção do biodiesel. A PBIO também atua como uma diversificadora de matéria-prima para o biodiesel. Isto é importante, pois a produção deste combustível – apesar dos seus benefícios em termos de emissão de carbono – tem dois problemas: (i) compete com a utilidade destes produtos de virarem alimentos para seres humanos; e (ii) pode incentivar o aumento da monocultura (como no caso da soja). Como mostramos em parágrafo anterior, a matriz brasileira de biodiesel é 71% advinda da soja. No entanto, a PBIO produz apenas 26% de todo o seu biodiesel com soja, exatamente o inverso da matriz das outras empresas do país. Isto se dá em parte porque a empresa se encontra na região Nordeste (incluso o norte de Minas Gerais), onde a disponibilidade de matérias são outras que não soja. Mas é importante pontuar que, a instalação de usinas no Nordeste é também uma política de produção para o setor, pois vai de encontro à tendência do setor privado de se estabelecer apenas nas grandes regiões produtoras de soja (Sul e Centro-Oeste).

Gráfico 7 – Participação da soja como matéria-prima na matriz de produção do biodiesel (2020)

Fonte: ANP

Isto se dá porque a PBIO diversifica sua matriz dando mais peso para produtos como “gordura bovina” e “outros materiais graxos” – tal como podemos ver no gráfico abaixo. Importante pontuar que a gordura bovina não faz com que haja mais criação de gado nestas regiões, e sim gera um aproveitamento de produto que poderia ser descartado depois do abate.

Gráfico 8 – Matéria-prima utilizada para produção do biodiesel da PBIO (2020)

Fonte: ANP


[1] Remetendo ainda ao programa pró-álcool, na década de 1970.

[2] https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-601/topico 588/Relatório%20Síntese%20BEN%202021-ab%202020_v2.pdf

[3] Mistura de matérias-primas tradicionais em tanque e reprocessamento de sub-produtos gerados na produção de biodiesel.

[4] Gordura de frango, gordura de porco, óleo de algodão, óleo de canola, óleo de fritura usado, óleo de milho e óleo de palmiste.